Felicidade Demais Incomoda | Flapping no Autismo e Aceitação

Felicidade demais incomoda? Uma história real sobre flapping no autismo, aceitação e como uma mãe aprendeu a enxergar a felicidade da filha com outros olhos.

Fabiana Pereira

6/2/20265 min read

Eu Tentei Impedir Minha Filha de Fazer Flapping. Hoje Me Arrependo.

Houve um tempo em que eu não entendia.

A Manuela agita as mãos quando está feliz, quando fica emocionada, quando algo desperta o interesse dela. Ou às vezes do nada, algo acontece e os braços entram em movimento. O chamado flapping. Acontece quando a música favorita dela começa a tocar, quando ofereço um yakult, quando ela descobre algo novo que a encanta.

E vou ser honesta: no começo, eu não sabia o que fazer com isso.

A princípio achei que era só alegria. Mas com o tempo percebi que ela também faz o flapping quando está frustrada, quando algo não sai como ela espera, quando o mundo ao redor dela fica grande demais para caber dentro do corpinho dela.

Isso começou a me preocupar. Confesso que tentei corrigir no começo, por medo dos olhares, por insegurança, porque tudo era muito novo.

E então veio a orientação que até hoje me dói lembrar.

Quando um Especialista Erra

Logo após o diagnóstico de Autismo e TDAH, quando a Manu tinha 3 anos, uma psicóloga bem recomendada, da equipe do psiquiatra que nos deu o diagnóstico, me orientou a abaixar as mãos dela sempre que fizesse o flapping. Segundo ela, era um comportamento inadequado que precisava ser corrigido.

Era tudo tão novo, tão assustador. Eu não sabia nada sobre o espectro autista. E quando você não sabe, você confia nos especialistas.

Então eu segui.

Quando lembro disso, sinto uma culpa imensa. Mesmo agora, fico emocionada ao falar sobre isso. Porque eu podia ver, com os meus próprios olhos, o quanto aquilo machucava a Manu. Ela corria e se escondia. Ficava olhando para as próprias mãos como se elas tivessem feito algo errado.

Ela é não verbal. Eu nunca vou saber exatamente o que passava na cabeça dela nesses momentos.

E isso quebra o meu coração até hoje.

O que aprendi com isso: especialistas também erram. Muitos ainda tratam o autismo como algo a ser corrigido, aparado, encaixado em um molde "normal". E os pais, especialmente no início, se apoiam nessas vozes com uma confiança total, porque estão com medo e precisam de direção. Se você está nesse lugar agora, ouvindo algo que faz o seu coração apertar: confie no seu instinto. Você conhece o seu filho como ninguém.

O Que É o Flapping e Por Que Ele Existe

O flapping é um tipo de stimming, abreviação de autoestimulação sensorial. É qualquer comportamento repetitivo que ajuda uma pessoa a regular as próprias emoções, manter o foco e processar o que está sentindo através dos sentidos.

Para a Manuela, o flapping é autorregulação. É o sistema nervoso dela encontrando equilíbrio num mundo que muitas vezes é barulhoso demais, imprevisível demais, intenso demais.

Ele aparece na alegria. Aparece na frustração. Aparece na concentração profunda.

Não é falta de controle. É controle, do jeito que o corpo dela aprendeu a fazer.

E quando aprendi a observar isso, tudo mudou. Percebi que quando deixava a Manu livre para correr em círculos, balançar os pés, fazer o flapping, ela ficava muito mais aberta para aprender, para se conectar, para receber o que eu queria ensinar. O corpo dela precisava se mover para que a mente dela pudesse estar presente.

O que a ciência confirma: crianças neurodivergentes que têm o stimming suprimido desenvolvem níveis muito mais altos de ansiedade. Um estudo de Waizbard-Bartov et al. (2023), citado no livro The Neurodivergence Skills Workbook for Autism and ADHD (Kemp & Mitchelson), mostrou que 94% dessas crianças preenchiam critérios para transtorno de ansiedade aos 11 anos. Quando silenciamos o sistema natural de regulação do corpo, a ansiedade ocupa esse lugar.

Felicidade Demais Incomoda

A Manu tem 9 anos hoje. Ela continua fazendo o flapping e vai fazer isso por toda a vida. Faz parte de quem ela é.

A maioria das pessoas que nos encontra percebe que ela é autista. Algumas entendem. Outras olham torto. E algumas, as que mais doem, são pessoas próximas. Pessoas que dizem que "entendem".

Certa vez, um familiar pediu para trocar de lugar à mesa. Estava desconfortável ao lado da Manu porque ela balançava as mãos e os pés.

Nesses momentos, eu tenho que escolher: causar uma cena ou deixar passar.

Naquele dia, fui sarcástica. Sorri e disse:

"Entendo perfeitamente. Melhor mudar de lugar mesmo. Felicidade demais incomoda."

Por dentro? Eu estava segurando muita coisa. Mas eu me contenho pela Manu, pela irmã dela, pela paz das minhas filhas. Faço o possível para que elas cresçam sabendo que são especiais, que não são um problema. O problema é a ignorância. E ignorância tem cura, se a pessoa quiser aprender.

Quando alguém se assusta com o flapping dela, quando acha que ela pode machucar alguém, respiro fundo e explico. Geralmente já tenho a explicação na ponta da língua. Quando não tenho energia para isso, simplesmente ignoro, porque se for brigar toda vez, não sobra força para o que realmente importa.

Comemorando Junto

Quando o flapping vem da alegria, eu comemoro junto com ela.

Damos um "hi-five". Eu sorrio de verdade. E guardo mentalmente o que a deixou assim, porque esses momentos viram ferramentas. Quando ela está perto de uma crise, quando a frustração bate forte, eu lembro dessas cenas ou tento recriar aquele gatilho positivo para ajudá-la a voltar ao equilíbrio.

Aprender a ler o flapping dela foi aprender a falar a língua dela.

O Que Eu Diria Para Mim Mesma

Se eu pudesse voltar no tempo e falar com a Fabiana de quando a Manu tinha 3 anos, aquela que abaixava as mãos da filha porque uma psicóloga mandou, eu diria:

Siga o seu coração. Não tenha medo. Mesmo quando um especialista der uma orientação que faça você se sentir mal por dentro, não faça. Especialistas também erram. Você é a mãe. Você conhece ela. Confie nisso.

Para Quem Está Lendo Isso Agora

Se você tem um filho que faz stimming, seja flapping, balançar, girar ou repetir sons, e está se perguntando se deve corrigir:

Não corrija. Observe.

Pergunte-se: o que ele está sentindo agora? Está feliz? Frustrado? Sobrecarregado? O corpo dele está te contando algo.

O stimming não é inadequação. É comunicação.

O nosso papel não é silenciar essa linguagem. É aprender a ouvi-la.

E quando você entender o que o corpo do seu filho está dizendo, tudo fica mais fácil. O ensino fica mais fácil. A conexão fica mais fácil. O amor, que já estava lá, encontra um caminho mais claro.

A Manu vai sempre agitar as mãos. Espero que nunca pare.

Esse movimento é ela: inteira, autêntica, e completamente ela mesma.

E isso sempre vai ser suficiente.

💜 Siga o Mães que Ensinam para acompanhar histórias reais sobre autismo, amor e as pequenas lições que transformam nossas vidas todos os dias.

📩 Faça parte da nossa comunidade por e-mail e receba novas histórias, recursos práticos sobre autismo e palavras de incentivo para a sua jornada — diretamente na sua caixa de entrada.

Contato

Nos siga nas redes sociais

E-mail

contato@maesqueensinam.com

© 2025. All rights reserved.