Criando uma Criança Autista: As Adaptações Invisíveis que os Pais Fazem Todos os Dias
Criar uma criança autista muitas vezes envolve adaptações invisíveis no dia a dia. Nesta história pessoal, compartilho experiências sobre comportamento de busca sensorial, os desafios da maternidade no autismo e o trabalho silencioso que muitos pais realizam todos os dias.
Fabiana Pereira
3/12/20265 min read
Coisas que eu escondo todos os dias e quase ninguém percebe
Depois de seis anos longe, finalmente voltei a casa dos meus pais com minhas meninas.
Era uma viagem muito esperada.
Seis anos é muito tempo.
Meus pais estavam ansiosos para ver a Manuela e a Milena crescerem de perto, para viver momentos simples que antes existiam apenas em chamadas de vídeo.
Quando finalmente chegamos, tudo parecia perfeito.
A última vez que tinham visto a Manu pessoalmente, ela tinha três anos.
Agora ela tinha nove.
Seis anos mudam muita coisa.
Principalmente quando se vive a realidade do autismo.
Quando chegamos, tudo era alegria.
Abraços demorados.
Mesa cheia.
Conversas que atravessavam a madrugada.
Aquela sensação profunda de finalmente estar em casa.
Mas, alguns dias depois, algo estranho começou a crescer dentro de mim.
Uma tensão constante.
Um medo silencioso de que alguma coisa pudesse sair do controle a qualquer momento.
E o mais confuso era que eu não sabia explicar de onde aquilo vinha.
Eu deveria estar feliz.
Eu estava com minha família.
Mas todos os dias eu acordava em estado de alerta.
A casa era cheia de amor.
Mas não era a nossa casa.
Sem perceber, comecei a mudar pequenas coisas pela casa.
Quase invisíveis.
Empurrava um móvel um pouco mais para o lado.
Guardava algo dentro de um armário.
Colocava algo fora de vista.
Coisas pequenas.
Mas muitas.
Porque quando você vive com uma criança autista, o mundo começa a se reorganizar ao redor dela.
Pensava em espaço para alguém não tropeçar.
Pensava em uma quina onde alguém poderia bater a cabeça.
Pensava em barulhos inesperados.
Pensava em visitas que poderiam chegar sem aviso.
Pensava em coisas que poderiam virar crises.
Pensava em coisas que poderiam virar acidentes.
E tudo isso acontecia quase sem consciência.
Era automático.
Porque na minha casa, tudo já foi adaptado ao longo dos anos.
Mas ali… não.
Ali era uma casa normal.
Uma casa linda.
Uma casa cheia de amor.
Mas não era uma casa adaptada para uma criança autista.
E foi aí que percebi o peso de algo que raramente é falado.
O peso das adaptações invisíveis.
Coisas pequenas que se tornam parte da rotina de uma mãe atípica.
Tão naturais que muitas vezes nem percebemos mais.
Como os ovos.
Na casa dos meus pais, eles ficavam na geladeira.
Como em qualquer casa.
Mas na minha casa, ovos ficam escondidos em prateleiras altas.
Cobertos.
Fora de vista.
Porque para a Manuela ovos não são apenas comida.
Eles são uma experiência sensorial.
Uma vez ela quebrou mais de uma dúzia no chão do quarto.
Espalhou nas paredes.
No espelho.
Passei semanas limpando e tentando tirar o cheiro do quarto.
Então hoje, automaticamente, eu escondo ovos.
Outra coisa são os produtos de banheiro.
Shampoo. Condicionador. Perfume. Maquiagem. Cremes.
Em muitas casas eles ficam expostos, organizados, decorando o banheiro.
Mas na minha casa eles ficam guardados.
Trancados.
Só aparecem na hora de usar.
Porque se eu esquecer…
Eles podem ser derramados.
Misturados.
Espalhados no chão.
Não porque alguém quer fazer bagunça.
Mas porque muitas crianças autistas vivem o mundo através das sensações.
Algumas buscam estímulos intensos.
Texturas.
Movimento.
Cheiros fortes.
O som de algo quebrando.
A textura de algo escorrendo pelas mãos.
O visual de um líquido se espalhando no chão.
Esse comportamento é conhecido como sensory seeking — quando o corpo procura sensações para ajudar o cérebro a se organizar.
Para muitas dessas crianças, ver um líquido se espalhando no chão pode ser fascinante.
O som de algo quebrando pode ser interessante.
O corpo procura estímulos para se organizar.
Para regular o sistema nervoso.
Para entender o próprio corpo no mundo.
Por isso uma poça de água pode ser fascinante.
O som de um splash pode ser irresistível.
Não é bagunça.
Não é desobediência.
É curiosidade sensorial.
E foi exatamente isso que me fez colocar a água do cachorro em um canto escondido do quintal.
Porque se a Manu vê algo que parece uma poça…
Ela pisa.
Ou joga algo dentro.
Só para ver o splash.
E foi nesse momento que tudo fez sentido para mim.
Alguém perguntou:
“Por que você está mudando isso de lugar?”
E enquanto eu explicava…
Eu percebi.
Eu estava cansada.
Muito cansada.
Cansada de fazer centenas de pequenas adaptações todos os dias.
Cansada de prever coisas que talvez nunca aconteçam.
Cansada de viver em estado de antecipação.
Porque a verdade é que o mundo sensorial de uma criança autista pode ser imprevisível.
Barulhos podem parecer muito mais altos.
Luzes podem parecer mais fortes.
Cheiros podem parecer intensos.
E mudanças… podem parecer gigantes.
O cérebro busca previsibilidade.
Segurança.
Referências estáveis.
Às vezes isso aparece de formas simples.
Sentar sempre na mesma cadeira.
Deitar sempre no mesmo lugar.
Virar a cabeça para baixo em um canto específico do sofá.
Pode parecer apenas uma mania.
Mas muitas vezes é o corpo tentando se organizar.
Encontrar equilíbrio.
Quando alguém muda aquela cadeira de lugar…
Pode parecer um detalhe pequeno.
Mas para o cérebro dela pode parecer que o mundo inteiro mudou.
O mesmo acontece com o medo.
Para muitas crianças autistas não existe medo pequeno ou medo grande.
Se algo assusta, o corpo reage.
Primeiro o sistema nervoso dispara.
Depois vem a razão.
Pode ser uma formiga.
Ou uma cobra.
A resposta física pode ser a mesma.
O coração acelera.
O corpo entra em alerta.
E naquele momento explicar nem sempre resolve.
Primeiro o corpo precisa se sentir seguro.
Essas são as coisas que aprendemos vivendo.
Observando.
Errando.
Tentando de novo.
E aos poucos o mundo vai sendo adaptado.
Móvel por móvel.
Objeto por objeto.
Rotina por rotina.
Até que um dia…
essas adaptações ficam invisíveis.
Tão invisíveis que até nós esquecemos que elas existem.
Até sair da nossa própria casa.
Algumas mães organizam a casa para ficar bonita.
Outras organizam a casa para evitar crises.
Foi isso que aquela viagem me mostrou.
Que a maternidade atípica carrega uma carga silenciosa.
A carga de observar.
Prever.
Ajustar.
Adaptar.
Não para controlar o mundo.
Mas para torná-lo um pouco mais seguro.
E talvez a parte mais difícil seja outra.
Nem todo mundo entende imediatamente.
E às vezes, no meio do cansaço, podemos parecer duras.
Mas muitas vezes as perguntas das pessoas vêm do mesmo lugar que as nossas adaptações.
Amor.
Elas querem ajudar.
Só ainda não sabem como.
E talvez por isso algumas das coisas mais pequenas — esconder ovos, guardar detergente ou mover um pote de água — possam ser a diferença entre um dia tranquilo…
e um dia muito difícil.
Porque no fim das contas…
a maternidade atípica é feita de centenas de pequenas adaptações invisíveis.
Pequenas coisas que quase ninguém vê.
Mas que sustentam o mundo inteiro de uma criança.
Se você também vive escondendo ovos, mudando móveis ou guardando coisas que ninguém mais percebe…
talvez você também carregue essas adaptações invisíveis.
E se hoje você estiver cansada…
você não está sozinha.
Se você tiver ideias sobre temas que gostaria que eu escrevesse, tiver dúvidas ou quiser compartilhar sua própria experiência, me procure no perfil Mães que Ensinam no Facebook. Vou amar conversar com você.





