O que Não Fazer com uma Criança Autista: 7 Dicas de Mãe de Duas Meninas
Um guia pessoal e prático sobre o que não fazer com uma criança autista, escrito por uma mãe de duas meninas com diferentes níveis de suporte (2 e 3). Este artigo compartilha erros da vida real, lições aprendidas e estratégias para apoiar crianças autistas com empatia, estrutura e respeito.
Fabiana Pereira
2/13/20267 min read


A dor de aprender errando
Quando recebi o diagnóstico de autismo das minhas filhas, minha cabeça foi inundada por perguntas:
“Como posso ajudá-las? Como será o futuro delas? Será que elas vão ter amigos?”
Essas dúvidas são normais. Como pais, queremos proteger, preparar e garantir que o mundo seja gentil com nossos filhos. Mas o mundo nem sempre é gentil. E, quando você descobre que suas filhas estão no espectro, com níveis de suporte diferentes (2 e 3), desafios diferentes e necessidades muito específicas, o medo ganha outra dimensão.
No meio do desespero para ser o apoio que elas precisavam, eu errei. Erros que trouxeram estresse, crises desnecessárias e culpas profundas. Não escrevo isso para romantizar nossa jornada. Não há nada romantizado aqui. Há amor, ajustes constantes e a realidade de um mundo que ainda carece de conhecimento e empatia.
Compartilho minhas falhas porque talvez você possa aprender sem precisar passar pelas mesmas dores.
1. Não a deixe pensar que o autismo é algo ruim
Muitas crianças autistas crescem acreditando que há algo “errado” com elas. Isso acontece porque o mundo ainda reage com pena, ignorância e comparação.
Minha filha mais velha recebeu o diagnóstico aos 16 anos, anos depois da irmã mais nova, autista nível 3 e não verbal. O que deveria ter sido um momento de clareza virou medo. A primeira coisa que ela disse foi:
“Não contem a ninguém.”
Ela tinha observado as reações ao diagnóstico da irmã: comentários carregados de pena, olhares diferentes, julgamentos silenciosos. Ela não conseguia entender como poderia compartilhar o mesmo diagnóstico sendo tão diferente.
Ali eu entendi algo importante: dentro do espectro não existe hierarquia de dor. Não existe “mais” ou “menos” autista. Existem necessidades diferentes. E todas são legítimas.
Faço o possível para mostrar que o autismo não define quem ela é. Explico que muitas reações negativas vêm do medo ou da falta de conhecimento. Construir uma visão positiva sobre si mesma é um processo contínuo. Mas é essencial.
2. Não complique as tarefas
Aprendi, muitas vezes da forma mais difícil, que tarefas simples para nós podem ser esmagadoras para uma criança autista.
Se eu dizia para minha filha mais velha “limpe a sala”, ela entrava em confusão. Não sabia por onde começar. Quando eu corrigia algo que havia ficado para trás, ela respondia frustrada:
“Você não disse isso antes!”
E ela tinha razão.
Comecei a dividir as tarefas em pequenos passos. Criei listas detalhadas para que ela pudesse marcar cada etapa concluída. O resultado foi surpreendente. Ela não só executava melhor, como fazia com uma precisão incrível — muitas vezes melhor do que eu mesma faria.
Já com minha filha mais nova, o suporte precisava ser ainda mais estruturado. Uso frases curtas:
“Pegue a escova.”
“Coloque a pasta.”
“Escove a parte de baixo.”
“Agora a de cima.”
Esse método pode parecer demorado, mas, com o tempo, essas orientações se tornam hábitos, e a tarefa se torna parte da rotina dela.
Adapte a comunicação às necessidades da criança. Use listas, imagens ou guias passo a passo para evitar sobrecarga sensorial e melhorar a compreensão. Quanto mais claro for o processo, mais confortável será para a criança.
E aqui está algo importante: às vezes as pessoas olham para uma criança nível 1 e dizem “ela é independente”, ou para uma nível 3 e dizem “ela precisa mais”. A verdade é que cada uma precisa de suporte no seu nível. Não comparar é um exercício constante.
3. Não mude a rotina de repente
A rotina é a âncora que traz tranquilidade para muitas crianças autistas. Qualquer alteração inesperada pode levar à sobrecarga sensorial, meltdowns, dificuldades para dormir e ansiedade.
Mesmo para minha filha mais velha, em que as mudanças são mais gerenciáveis, ela tem dificuldades em aceitar. Consegue se ajustar, mas precisa de tempo. Já minha filha mais nova tem mais dificuldade.
Durante as férias escolares, minha filha mais nova insiste em vestir o uniforme da escola. Mesmo depois de explicar que não há aula, o corpo dela busca o padrão conhecido.
Isso gera resistência, desconforto e, às vezes, crise.
Percebi que a confusão vem da ausência de previsibilidade. Para ela, uniforme significa segurança.
Comecei a antecipar mudanças com estratégias simples. No café da manhã:
Dias de aula → sanduíche de presunto e queijo.
Dias sem aula → pão com manteiga ou maionese.
Esse pequeno detalhe ajuda ela a entender que o dia será diferente.
Mudanças precisam ser preparadas com antecedência, usando explicações simples, calendários visuais e planejamento. E, mesmo assim, cada filha reage de forma diferente. A mais velha consegue se ajustar, mas precisa de tempo. A mais nova precisa de muito mais previsibilidade.
4. Não fale em metáforas
Minha filha mais velha entende tudo de forma literal.
Uma vez, no meio de uma discussão, eu disse:
“Você tem uma língua afiada”,
Ela imediatamente olhou para mim, confusa, e perguntou:
“Como assim?
Minha língua está normal.”
Meu pai é religioso e sempre usou expressões da Bíblia, como:
“Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai até a montanha.”
Cresci ouvindo isso. Mas, quando usei com minha filha, percebi como criava confusão. Agora, tento evitá-las ao máximo.
Ela, já adulta, criou uma lista para decorar o significado de algumas expressões. Sarcasmo também é difícil. Já a vi profundamente magoada por não entender que alguém estava “brincando”.
E o mais doloroso é quando pessoas que sabem da dificuldade usam sarcasmo para rir dela.
Aprender a me comunicar com mais clareza e honestidade com minhas filhas revelou uma profundidade incrível na nossa relação. Percebi que simplificar minha linguagem não é apenas necessário para elas, é também uma forma de criar laços mais autênticos. Evite metáforas e sarcasmo. Incentive familiares e amigos a fazerem o mesmo, especialmente em conversas importantes. E, sempre que necessário, esteja por perto para explicar ou traduzir expressões.
5. Não grite ou as apresse
Como mãe, sei como é difícil manter a paciência quando o dia a dia é desafiador. Minhas filhas me testam, sabem os meus limites e, às vezes, parece que fazem questão de ultrapassá-los. Perdi a paciência mais vezes do que gostaria de admitir, o que resultou em discussões dolorosas e meltdowns que poderiam ter sido evitados. Com minha filha mais velha, desenvolvi uma estratégia simples, mas eficaz: quando sinto que estou prestes a perder o controle, aviso a ela: “Podemos falar sobre isso depois, em 30 minutos?” Essa pausa ajuda ambas a se recompor. Dar um tempo me a ajuda a pensar em como controlar expectativas,e serve para que ela saiba que a conversa não está sendo ignorada, apenas adiada. Já com minha filha mais nova, a abordagem é diferente. Quando sinto que estamos à beira de um meltdown, ofereço algo que ela gosta para redirecionar a atenção dela (um brinquedo sensorial, uma musica, algo que a faça rir ou ate mesmo uma bexiga com agua para ela jogar e ver explodir isso da uma boa sensao ao ver a bexiga estorar e agua correr) se possivel tambem a
coloco no banho. Esse momento de calma não apenas ajuda ela a se autorregular, mas também me dá espaço para respirar e recuperar a paciência. A comunicação e a paciência são habilidades que desenvolvemos aos poucos, mas cada esforço vale a pena.
Não romantizo isso. Há dias exaustivos. Há culpa. Mas cada ajuste faz diferença.
6. Não tente parar os stimmings
O stimming é uma ferramenta poderosa de autorregulação para muitas crianças autistas. É a forma que elas encontram para lidar com sobrecargas sensoriais ou emocionais. Tentar parar esses comportamentos pode não só ser ineficaz, como também prejudicial, amplificando a ansiedade ou até mesmo causando uma crise.
Entre os 2 e 5 anos, minha filha mais nova batia a cabeça no chão durante crises.
No início, eu segurava. Tentava impedir. Só piorava. Nós duas nos machucávamos.
Depois de orientação profissional, comecei a agir diferente. Quando ela começava, eu a colocava em um espaço seguro e macio. Sentava a uma distância segura e começava a brincar com algo que ela gostava, como um spinner ou torres de blocos, sem contato visual direto.
Com o tempo, ela parava de chorar, se aproximava e se juntava a mim.
Confesso que esses momentos tiravam um pedaço de mim. Não abraçar era doloroso. Mas aprendi que, quando eu interferia fisicamente, a crise durava mais.
Hoje, aos 9 anos, isso quase não acontece.
Agora, quando ela mostra sinais de sobrecarga, como balançar as mãos ou correr em círculos, criamos alternativas seguras. Se ela precisa correr, por exemplo, a professora a direciona ao corredor, onde pode correr e se autorregular sem chamar a atenção para si mesma ou para os colegas. Se o stimming não oferece perigo, permita que a criança o faça. Caso seja necessário, redirecione o comportamento para um ambiente ou atividade mais segura. Respeitar essa necessidade é essencial para o bem-estar da criança.
Todo autista enfrenta grandes desafios. Todos precisam de suporte. Cada um no nível da sua necessidade.
7. Não force o contato visual
Para muitas crianças autistas, manter contato visual é desconfortável ou até doloroso. Enquanto algumas pessoas podem interpretar isso como desinteresse ou falta de respeito, é importante compreender que forçar esse comportamento pode causar sofrimento desnecessário.
Lembro-me de repetir as palavras que minha mãe dizia quando eu era pequena: “Olhe para mim quando estou falando com você.” Disse isso à minha filha mais velha em várias ocasiões, até perceber o quanto isso a afetava. Era difícil para ela sustentar o olhar e, mesmo assim, eu insisti.
Contato visual pode ser doloroso. Forçar não ensina respeito, ensina ansiedade.
Hoje, me arrependo profundamente. Aprendi que há outras maneiras de estabelecer conexão e comunicação sem o contato visual. Um sorriso, um toque no ombro ou até mesmo sentar-se ao lado dela funcionam muito melhor para nós. Aprendi a respeitar e entender os limites das minhas filhas em relação ao contato visual. Uso alternativas, como conversar enquanto caminhamos ou sentadas lado a lado no sofá. Uso também comunicação escrita, para garantir que elas se sintam confortáveis e respeitadas.
Respeitar limites fortalece o vínculo.
Reflexão Final
Ser mãe de meninas no espectro, com níveis de suporte diferentes, não é uma jornada fácil. Não existe manual ou fórmula mágica. É uma jornada real. Às vezes assustadora. O mundo ainda carece de conhecimento e empatia, e a comparação entre níveis de suporte pode ser uma das coisas mais dolorosas que enfrentamos.
Mas, dentro da nossa casa, eu escolho não comparar. Escolho ajustar. Escolho aprender.
Eu erro. Aprendo. Ajusto.
E continuo.
Espero que minhas falhas ajudem você a evitar dores desnecessárias. Que essas lições sirvam como referência prática, mas também como um abraço sincero de quem vive essa realidade todos os dias.
Se essa história tocou você, compartilhe com alguém que também está tentando aprender e compreender o autismo. 💛