PDA no Autismo: Quando Não É Desobediência, É Ansiedade

Entenda o que é PDA no autismo, como a evitação de demandas está ligada à ansiedade e como lidar com isso na prática. Este texto reflete minha vivência como mãe, a partir das orientações profissionais que recebi e das experiências com minhas filhas.

Fabiana Pereira

3/2/20266 min read

Entendo PDA no autismo
Entendo PDA no autismo

Quando Não É “Desobediência”: Entendendo o PDA no Autismo

Há algum tempo, em uma sessão da Manuela com a terapeuta ocupacional (TO), eu estava explicando como minhas meninas têm muita dificuldade em cumprir tarefas. Na maioria das vezes, preciso apresentar a tarefa de forma disfarçada, sem que pareça uma obrigação.

Passo muito tempo conversando sobre a importância de fazer algo ou tentando mostrar como pode ser divertido guardar brinquedos ou começar uma atividade simples.

Tenho que ser muito criativa, como:

Exemplo prático – Atividades com a Manu

Quando faço atividades de escrita com a Manu, como seguir a linha pontilhada, não posso pedir para ela sentar e dar o lápis para ela como a maioria dos pais.

Geralmente faço uma folha com cada linha de uma cor, na sequência do arco-íris, e mostro para ela. Mostro as canetinhas juntas e a folha dela ao lado da minha já colorida. Aí sim ela se interessa e faz a atividade.

Uso essa técnica com tudo: matemática, português. Não importa o que a escola possa falar depois.

O importante para mim é que ela esteja feliz e faça, sem pressão, sem fugir, sem eu chamar um milhão de vezes, sem meltdowns.

Por causa de toda essa estratégia, ela me perguntou:

— Você sabe o que é PDA?

Eu nunca tinha ouvido falar.

Quando ela explicou que significava Pathological Demand Avoidance, confesso que meu primeiro sentimento não foi alívio. Foi desespero.

Mais uma sigla.
Mais um termo.
Mais algo para “adicionar” à nossa lista.

Naquele momento, pensei:
“Mas que inferno, mais uma coisa para entender.”

Mas, conforme ela foi explicando, comecei a perceber algo importante: muitas das estratégias que eu já usava por instinto faziam sentido dentro desse perfil.

Minhas filhas não têm má vontade de fazer tarefas. Não é que eu não ensine limites ou as proteja demais.

É ansiedade.
É como o cérebro e o corpo delas reagem às demandas.
E são novas formas de ensinar que precisamos aprender e readaptar.

Saber mais sobre PDA muda muito. Nós, pais, fazemos muitas coisas por instinto, mas dar nomes e entender a ciência por trás traz clareza e conforto. Nos ajuda a entender que há um motivo para aquele comportamento, que não estamos loucos ou que nossas crianças não são um “problema”.

Então, o que é PDA?

O autismo é um espectro que tem muitas cores, e uma dessas cores pode ser o PDA (Pathological Demand Avoidance).

PDA é descrito como um padrão em que a criança evita demandas de forma extrema. Não apenas tarefas difíceis, mas qualquer coisa que seja percebida como exigência, até mesmo aquilo que ela goste de fazer.

Exemplo – O parque

A Manu ama balançar no parque. Quando ela chega lá, fica super contente.

Mas quando eu falo: “Vamos ao parque”, ela corre e se esconde.

Aí já começa a negociação para ela ir. Isso é muito difícil, pois tenho que convencer ela a ir fazer algo que sei que a faz feliz.

Segundo especialistas, essa evitação pode aparecer de várias formas:

  • Criar distrações

  • Dar desculpas

  • Focar intensamente em outra coisa

  • Negociar

  • Retrair-se

  • Fugir

  • Ou até entrar em meltdown ou crise de pânico

Às vezes pensamos que pode ser preguiça ou falta de vontade, pois pode se tratar de algo que elas gostam.

Mas não é desafio intencional.
É uma reação à ansiedade e ao desconforto interno.

Não é oposição. É desconforto interno.

Uma coisa que me marcou muito ao estudar mais sobre isso é que, muitas vezes, a resistência é confundida com:

  • Desobediência

  • Preguiça

  • Falta de interesse

Exemplo – A correspondência

Minha filha mais velha nunca faz nada sem negociar.

Ela sempre tem algo importante para fazer primeiro. Muitas vezes se prende no banheiro por horas quando eu peço para pegar a correspondência na caixa do correio.

Sempre tem uma desculpa do porquê ainda não foi buscar.

Isso me deixa louca.

Mas especialistas explicam que, no perfil PDA, qualquer demanda externa — algo que venha de outra pessoa — pode gerar um desconforto interno muito grande.

É como se o corpo reagisse antes mesmo da razão.

Mesmo tarefas simples, como:

  • Calçar o sapato

  • Sentar à mesa

  • Fazer uma atividade escolar podem gerar bloqueio.

Exemplo – A sandália antes de sair

Minha filha mais nova aprendeu a calçar os sapatos. Fiquei muito orgulhosa dela.

Ela ama sair de carro. Então, antes de ir para o carro, eu digo:

Calce a sandália primeiro.

Ela senta ao lado, olha a sandália, deixa de lado, corre em círculos. Às vezes até começa e já corre novamente, ou deita no sofá e fica olhando para o teto.

Então eu tenho que lembrá-la novamente:

Oba, vamos sair de carro! Cadê a sandália da Manu?

Esse ciclo se repete algumas vezes até que ela calce as sandálias.

Uma tarefa simples.
Com uma recompensa logo em seguida: sair de carro.

Mas mesmo assim ela tenta evitar colocar as sandálias.

É como se calçar as sandálias ou pegar a correspondência na caixa do correio fosse como escalar uma montanha — uma tarefa longa e cansativa.

Elas conseguem fazer.
Elas sabem fazer.

Mas só fazem quando sentem que é escolha delas.

Elas só executam algo se estiverem internamente motivadas e, muitas vezes, precisa ser ideia delas.

O que está por trás disso?

Crianças no espectro, assim como minhas meninas, já têm rigidez cognitiva e dificuldade com flexibilidade.

Quando algo muda de repente — como início de férias escolares, caminho para o mercado, até mesmo a cor da caixa de brinquedos — ou quando uma demanda aparece “do nada”, isso pode gerar ansiedade intensa.

Enquanto muitas crianças aprendem socialmente que precisam esperar a vez para brincar no balanço, crianças autistas nem sempre processam essa hierarquia social da mesma forma.

Elas não aceitam algo simplesmente porque alguém disse.
Elas precisam do motivo.
Da lógica por trás da regra.

Por exemplo:

É necessário esperar que ele termine de brincar porque ele chegou primeiro. Existe uma ordem. Existe um combinado. Existe um motivo.

Mas no perfil PDA, o problema nem sempre é entender a regra. Muitas vezes é sentir que aquela espera foi imposta.

O simples fato de alguém dizer “agora não” pode gerar um desconforto interno muito grande.

Já vivi situações em que a explicação estava clara, a lógica fazia sentido, mas ainda assim vinha a resistência.

Não porque não entendiam.
Mas porque a sensação de não ter escolha gerava ansiedade.

Não é rebeldia.
Não é falta de educação.
Não é falta de limites.

O que parece desobediência pode, na verdade, ser um mecanismo de defesa.

Por fora, parece controle.
Por dentro, é desconforto.

Quando comecei a enxergar por essa lente, muitas situações com minhas meninas passaram a fazer mais sentido.

Não era que elas não queriam colaborar.
Era que precisavam sentir segurança para colaborar.

Isso significa que devemos deixar fazer tudo do jeito delas?

Claro que não. PDA não significa ausência de limites.

Mas significa que a abordagem tradicional, muito direta e muito impositiva, pode piorar a resistência.

O que funciona melhor para nós em casa é:

  • Dar escolhas

  • Negociar

  • Construir motivação

  • Evitar confronto direto

E isso eu já fazia sem saber o nome.

Eu transformava: “Arrume o quarto”em “Qual parte você prefere começar?” ou “Vamos fazer isso juntas por cinco minutos?”

Oferecer as canetinhas coloridas para fazer as atividades.
Convidar para ir ao parque, mas primeiro precisa calçar as sandálias.

Não é manipulação.
É sobrevivência emocional.

Um cuidado importante

É importante dizer que PDA não é um diagnóstico formal nos manuais de diagnóstico atuais. Alguns profissionais a descrevem como um perfil dentro do espectro do autismo, caracterizado por um padrão comportamental associado à ansiedade intensa em resposta a demandas. É mais comumente reconhecido em países como o Reino Unido e a Austrália, mas ainda é um tema de debate em outras partes do mundo.

Também não significa que toda criança autista tenha esse perfil.

Mas identificar esse padrão pode ajudar a entender melhor alguns comportamentos que, por muito tempo, foram chamados de:

  • Birra

  • Teimosia

  • Manipulação

Quando entendemos que a raiz pode ser ansiedade, nossa postura muda.

E quando a postura muda, o resultado também muda.

O que eu aprendi com isso?

Aprendi que aumentar a pressão quase sempre aumenta a resistência.

Aprendi que confronto direto gera escalada.

Aprendi que, quando diminuo a exigência e aumento a segurança, a cooperação aparece.

E principalmente:

Nem toda oposição é desafio.
Às vezes é medo.

Se você já sentiu que sua criança “luta contra tudo”, talvez não seja falta de limite.

Talvez seja ansiedade.

E ansiedade precisa de segurança antes de cobrança.

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PDA e autismo- ex1 - maes que ensinam
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